terça-feira, 5 de junho de 2007

Enquanto a música dura...

Mas tu és a música
Enquanto a música dura.
T.S. Elliot

A família “ideal” nunca existiu e se tudo correr bem nunca existirá. Isto é particularmente desmoralizante para quem se considera especialista na questão da família e preconiza autênticos manuais de instruções para chegar à perfeição familiar. Veja-se, por exemplo, os títulos de alguns livros e artigos que subentendem a possibilidade de se tornar um pai ou mãe “perfeitos”.
Convenhamos que, se tal fosse possível, ter uma família perfeita seria no mínimo aborrecido e no máximo assustador. E se esta ideia possa ser na teoria admitida pela generalidade das pessoas, no recôndito dos nossos pensamentos e, sobretudo, dos nossos sentimentos, é algo a que quase todos aspiram: a perfeição.
A questão levanta fervura quando se quantificam alguns dados relativos à contemporaneidade familiar: aumento do número de conjugalidades informais (união de facto, coabitação, etc.), de casais sem filhos, de nascimentos ocorridos fora do casamento formal, para não falar naturalmente do aumento exponencial de divórcios tornando esta condição quase tão normativa como a de casado.
Mas, e se toda esta realidade tida como contemporânea for na verdade algo que sempre existiu?
Num estudo tão singular quão interessante desenvolvido por Sofia Aboim e intitulado “Conjugalidades em Mudança”, a socióloga põe em questão alguns pressupostos que atribuímos à família tal como o sentido de família tradicional: “a família tradicional é, de facto, um mito” (in Jornal Público, 20/08/06).
Efectivamente, num olhar transversal sobre a nossa Sociedade verificamos que em todas as épocas co-existiram diversas formas de família. Vejamos, por exemplo, a família alargada constituída pelo casal, pelos pais de ambos ou de um dos membros do casal, às vezes com filhos nascidos fora do casamento e muitas vezes com os homens/pais ausentes por motivos laborais ou em serviço militar. Seria esta a família tradicional de épocas precedentes?
Mais do que mudanças na forma da família, diria que o que tem alterado é o seu fundamento. Face a um passado onde as uniões tinham por base motivos sobretudo económicos e sociais (acento na funcionalidade familiar) vemos um presente cada vez mais assente na união com base no afecto (tónica na satisfação familiar).
Penso que hoje mais do que nunca, as pessoas mantêm-se unidas “enquanto a música dura”, sendo esta música a do coração. Aproveitemos enquanto ela dura, sem dramatismos ou superficialidades convencionais, reflectindo o fundamento da nossa família: o essencial está lá?
(Coluna n' O Figueirense, 29/09/2006)
(imagem de F. Botero)

domingo, 3 de junho de 2007

O Feminismo enquanto nome masculino

Qual o sentido nos dias que correm discutir o Feminismo?
A luta pela igualdade de género não é recente e já no séc. XV encontramos vozes defensoras dessa igualdade (v.g. Christine de Pizan). Receio, contudo, que a multivocalidade sobre o tema o tenha fragilizado e tornado apenas ornato de alguns feministas; quantos homens e mulheres se consideram actualmente feministas?
Num sobrevoo histórico admiro-me, por exemplo, de só a partir de 1974 em Portugal todas as mulheres terem adquirido direito de voto. E as restrições não se ficavam por aqui. Até há bem pouco tempo, nas décadas de 60 e 70, a mulher não podia exercer o comércio sem autorização do marido, não havia qualquer protecção legal para mães solteiras, o marido tinha o direito de abrir a correspondência da mulher e esta não podia viajar para o estrangeiro sem autorização do marido… A função da mulher limitava-se à condição biológica da maternidade e ao papel de cuidadora do lar e da família e, nomeadamente, do pater familias, condições que enfraqueciam o potencial da mulher enquanto Ser Total (Simone de Beauvoir), capaz de produzir, de criar ao invés de exclusivamente reproduzir. Um Ser relativo (S. B.) condenado ao lugar do Outro, de objecto, de personagem secundária votada à imanência da sua função reprodutora.
Passados estes anos, como estamos?
Muita coisa mudou, é certo. As leis ambicionam maior igualdade de género, alguns discursos também. Mas e as atitudes? E os sentimentos? E a moralidade? Vasculhe-se o recôndito de nós e admiremo-nos com arquétipos sexistas. Como olhamos uma mulher que decide não ter filhos? Como julgamos outra que se ausenta do país por motivos académicos durante uns tempos deixando o filho pequeno com o pai? Como se sentem as mães que deixam o(s) filho(s) com o pai para passar um fim-de-semana com amigas? Provavelmente, de tão enraizada, a moral sexista desencadeia-nos no mínimo culpa por ambicionarmos diferentes caminhos. Mulher, para mim, é ser antes que tudo Pessoa, livre para ambicionar ser mãe, trabalhadora, empresária ou mesmo dona-de-casa. Independentemente do lugar que ocupamos na sociedade, na família, no casal, devemos reflectir se é nele que queremos estar, se a nossa condição de mulher alguma vez condicionou o nosso potencial enquanto pessoa. Provavelmente sim. No meu caso, luto veementemente contra essa restrição, sem proclamar a secundarização do homem encerrando a mulher num gueto feminista, sem reivindicar uma linguagem neutra, eriçando de cada vez que não dizem o masculino e o feminino, sem histerismos ou radicalismos, reflectindo o que enquanto pessoa desejo para a minha vida independentemente de ser mulher. Antecipando, contudo, as lutas que terei por a sociedade querer-me só mulher e não totalmente pessoa. Mas “ninguém nasce mulher; torna-se mulher” (S. B.) e, em última instância, torna-se pessoa; “o motivo de se saber um Ser humano é infinitamente mais importante do que todas as singularidades que distinguem os Seres humanos” (S. B.).Independentemente das cedências que façamos, que estas não nos limitem o potencial que desejamos ter, para que um dia mais tarde possamos olhar para trás e sentir generatividade por aquilo que fomos mas, sobretudo, por aquilo que somos: pessoas.
(Coluna n' O Figueirense de 10/11/2006)
(imagem de Paula Rego, "A Branca de Neve")

sábado, 2 de junho de 2007

"Pais...uma experiência"

A 27 de Junho de 2008, fez dois anos sobre o lançamento da 1ª edição do livro "Pais...uma experiência". Entretanto, vamos já a caminho da 3ª edição.

‘Pais, uma experiência’ aborda a temática da Educação Parental a partir de um projecto decorrido nos anos de 2004 e 2005 de intervenção com pais e famílias no âmbito do Plano Municipal de Prevenção das Toxicodependências do Concelho de Santa Maria da Feira – Projecto PAIS XXI. Este livro, circunscrito, sobretudo, à acção ‘Clube de Pais’ do respectivo projecto, surge do incentivo de diversas pessoas de referência na área para o fazer por verificarem a pertinência do projecto e a importância de o partilhar com a restante comunidade profissional, estudantil, dirigentes associativos mas também junto dos pais e restante comunidade que nutram um interesse pela temática da Educação Parental. Uma experiência construída com os pais
Nas palavras do Professor Daniel Sampaio, "Pais, uma experiência é um livro que não hesito a recomendar a todos os pais e a todos os técnicos que se dedicam à intervenção junto das famílias."; “Hugo Cruz e Inês Pinho souberam condensar, numa centena de páginas, uma experiência estimulante de trabalho, construída com os pais e não para os pais, colocando-se numa perspectiva muito diferente das habituais “Escolas de Pais” ou “Cursos Para Pais” que, em muitos casos, se limitam a promover sessões em que um “perito” indica aos pais o modo de agir, sem que o processo de “ensino” motive para alguma mudança significativa na interacção com os filhos. Neste livro “Pais, Uma Experiência”, a educação parental é entendida como “um processo co-construído” ao longo da intervenção com os pais, no sentido de se desenvolverem e reforçarem “competências parentais que permitam um melhor e mais adequado desempenho das funções educativas”, o que permitiu, a partir de um projecto inicial de prevenção primária das toxicodependências, desenvolver um conjunto de iniciativas de capacitação dos pais intervenientes, afinal os protagonistas de todo o processo” (do prefácio).

O porquê da intervenção com pais e famílias
Neste livro, são reflectidos e partilhados com o leitor diversos aspectos inerentes à intervenção com pais e com famílias numa vertente bastante prática e experiencial. Num primeiro momento é contextualiza a experiência do PAIS XXI, são explanados os seus objectivos, descritas as suas acções, referidas as entidades envolvidas no projecto e fundamentada a necessidade de uma intervenção deste género no concelho de Santa Maria da Feira. Num momento posterior, os autores debruçam-se sobre o conceito de Educação Parental – o que inclui e exclui esta designação? Nessa reflexão são abordados os pontos de partida para a intervenção com pais (os pressupostos teóricos que orientaram a experiência do PAIS XXI), são reflectidas as riquezas da intervenção em grupo e é discutido o lugar e papel do orientador na intervenção com grupos de pais (na obra designado por co-constructor). O livro reflecte também sobre a forma de intervir com pais através da descrição das estratégias, dos conteúdos e das abordagens que desenharam a intervenção. É também partilhado com o leitor o contributo de uma abordagem inspirada no teatro junto da intervenção com os pais, conversando pontes possíveis entre a imaginação e a realidade. Num capítulo inédito num livro sobre intervenção parental e familiar, são partilhadas as opiniões dos próprios pais envolvidos, opiniões de Olhos nos Olhos (designação deste capítulo), que ao longo de conversas se desembrulham discursos repletos de sentidos atribuídos pelos próprios pais à experiência do PAIS XXI. Há, também, lugar para os autores organizarem algumas considerações finais que derivam da relação entre os vários capítulos e os testemunhos dos pais do Clube.

Um livro de apoio a diversos profissionais e instituições
O art. 41º da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo contempla a Educação Parental como uma medida de promoção e protecção a ser desenvolvida pelos técnicos em conjunto com os familiares. Acontece que os objectivos, os conteúdos, a duração, a frequência e as orientações dessa medida carecem de linhas reguladoras. ‘Pais, uma experiência’ pode dar um contributo nesse sentido. Não obstante, sem a pretensão de um manual científico e muito longe de um aconselhamento paternalista, fornece motivos de reflexão não só para os pais, mas para os técnicos que com eles trabalham, ou para aqueles que se interessam pela família. Constituiu um modelo de trabalho com os pais, sobretudo pela experiência do “Clube de Pais”, onde a criatividade, o suporte, a partilha e o diálogo entre as diversas famílias (tirando partido da sua heterogeneidade) se concertam numa capacidade invulgar de potenciar as competências dos diversos agregados familiares, reforçando em cada momento a sua capacidade de intervenção junto dos filhos” (do prefacio de Daniel Sampaio).

Para mais informações sobre o livro, p.f. contactar albergariapinho@gmail.com (fotos do 1º lançamento do livro antecedido pela peça "Retratos de Família", teatro construído com os pais do Clube de Pais - 27/06/2006, Sta. Maria da Feira)